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A MODA NÃO É FÚTIL, E RONALDO FRAGA PROVA ISSO

Cinthia

In MODA Posted

A moda tem que ter propósito, assim como a vida

– Ronaldo Fraga

     Não é a primeira vez que o Estilista Ronaldo Fraga surpreende e encanta com seu desfile.  Na verdade os seus desfiles são sempre os mais lotados, concorridos e aplaudidos, e isso por que? Porque sabem que vão ser tocadas pela sua percepção ampla e singular sobre o mundo.

    Nas palavras do próprio Ronaldo Fraga, “A gente não quer mais coisas mudas, tudo tem que ter uma fala, um suspiro que seja. A moda tem que ter propósito, assim como a vida.” Isso  já demonstra a verdadeira inspiração do estilista, que sempre aborda temas políticos e sociais em suas criações que formam uma espécie de manifesto.

     Na inspiração desta edição do SPFW,  ele abordou a maior tragédia ambiental na história do Brasil, o rompimento da barragem de Mariana em Minas Gerais. O desfile intitulado As mudas, mexeu com o sentimento de todos que estavam presentes. Isso porque o estilista não abordou em si a catástrofe ocorrida, e sim a tentativa de um renascimento do povo, sua cultura e história. Para representar sua inspiração contou com a ajuda do projeto “meninas de Barra Longa”, grupo de bordadeiras local que ele conheceu quando foi convidado a visitar o projeto. 

 

    Acolhendo as memórias que foram levadas pela correnteza barrenta e violenta, como cartas, fotografias, plantas e todas as outras coisas que ganharam uma cor marrom e desbotada. Ronaldo Fraga transformou a inspiração de Mariana em uma poesia audiovisual repleta de amor e carinho, porém carregando o seu manifesto.

 

   A coleção contou com vestidos, blusas e shorts simples, porém repletos de memórias contadas através dos bordados, tingimentos e estampas. Os colares e pulseiras também transmitiam sua mensagem de resiliência, pois seus formatos lembravam as vigas retorcidas e desintegradas das casas destruídas.

 

 

    O desfile se iniciou com a entrada da apresentadora Marília Gabriela, que por sua vez estava com um vestido branco borrado, simbolizando o horror e a desolação de alguém que perdeu tudo no desastre. No fundo uma música de lamento tocada ao vivo por Lívia Netrovski e Fred Frerreira. No cenário uma paisagem composta por uma luz que se perdiam cada vez mais combinada a textura e a cor da lama que trouxe destruição.

 

 

    Marcando o final do desfile Marília Gabriela, entra novamente, dessa vez com um vestido preto e deita-se no chão em meio as outras modelos, sinalizando o luto pelas perdas da tragédia. Ao final dos 15 minutos de apresentação tudo que se podia ouvir eram longos aplausos e assovios.

 

    

 

      Para terminar deixamos as próprias palavras do estilista Ronaldo Fraga, em entrevista a revista Veja:

         “A roupa é o meu canal de comunicação. O mais importante para mim é o comunicar, não a roupa. Alguém já me disse ‘Nossa, você é tão apaixonado pela moda’. Não sou apaixonado pela moda, a moda é só o veículo que eu tenho. Se eu tivesse que fazer outra coisa, faria do mesmo jeito. Quando eu chego num lugar como esse como estilista, se um dia foi difícil, hoje é mais fácil, porque esse lugar do vestir, do corpo como suporte para mídia, é muito bacana. Estão vindo 12 meninas de lá para ver o trabalho delas nesse lugar, a maioria que nunca saiu dali, isso é transformador. A moda, quando faz isso, tem esse poder. É impossível tirar a postura política disso. Não dá  para esconder essa tragédia debaixo do papel. As barragens continuam rompendo no Brasil. Mas eu não queria reforçar a tristeza. Queria que de alguma forma fosse um alento.”

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